quinta-feira, 14 de abril de 2011

Jeff Buckley - Grace (1994) [USA]



O padastro foi bacana:nos dois anos que viveu com a mãe dele, deu carinho e discos do Led Zeppelin que mudaram sua vida. O olhar triste nas fotos pode não ter nada a ver com isso, mas o fato é que Jeff Buckley foi um menino sem pai. Ou melhor, que teve pai por apenas cinco dias. Ao decolar para a fama, Tim Buckley o deixou para trás, na barriga da mãe. Quando o menino estava com 8 anos, a mãe, separada, o procurou. Foi então que pai e filho passaram juntos um feriadão de Páscoa. Um par de meses mais tarde, Tim cheirou mais heroína do que seu organismo podia processar, e morreu, aos 28 anos. Deixou nove álbuns, a obra cantada com entusiasmo pela crítica: a voz de alcance admirável e surpreendentes fraseados jazzísticos, as canções lapidares entre o folk, o soul e a psicodelia, a poesia culta... Jeff morreu aos 30, num acidente triste, mas com tintas poéticas: afogou-se à noite no rio Wolf, em Memphis, pouco depois de cantarolar "Wholelotta Love". Foi em 29 de maio de ]997. Até então, havia lançado apenas um álbum cheio: Grace. As letras não chegam perto das que o pai escrevia, mas gritam aos ouvidos no disco três oitavas e meia de voz expostas sem exibicionismo, e canções de estrutura intrincada, com afinações de inusitado bom gosto à guitarra. À volta do efebo, uma banda impecável: Matt Johnson na bateria, e Mick Grondahl, no baixo. Arrebatamento total, emoção desmedida nas interpretações. Sobre o que canta o anjo caido? Estado de graça, claro, mais amor correspondido e adeus, falta de medo da morte ... Tudo em um tom que o crítico inglês Barney Hoskyns definiu como "êxtase insustentável", metafísica com orgasmo. Afinal, Buckley soa como page e Plant no mesmo corpo. Ah, sim, e três covers belíssimas que transcendem o rock, o pop e tudo mais: "Lilac Wine", dolorida canção famosa na voz de Nina Simone; a peça religiosa "Corpus Christi Carol", feita sob medida para corais impúberes, e a profana "Hallelujah", de Leonard Cohen, bem copiada da versão seminua que John Cale fez no disco-tributo I'm Your Fan, de 1991]. A despeito disso tudo, Grace não sacudiu o mundo quando foi lançado, em agosto de 1994. Ainda vigorava o luto pós-suicídio de Kurt Cobain, e no Reino Unido o britpop era apenas mais um entre tantos "trambiques" rock'n'roll. Até a morte de Jeff Buckley, o disco vendera menos de 300 mil cópias nos EUA. A revista Rolling Stone, em micareta histórica, tinha dado cotação três estrelas (entre cinco) e diagnosticado imaturidade em Jeff. Do outro lado do Atlântico, ouvidos melhores entenderam. Na França, houve um amor à primeira vista total: a revista Les Inrockuptibles cravou o rapaz como futuro do rock e foi entendida por seus leitores, que o elegeram artista do ano e Grace, melhor disco de ]994. McCartney, Lou Reed, Tom Verlaine, Bowie e Page babaram em público. Ao comentar o fato com o amigo e jornalista Bill Flanagan, Jefffez piada: "Estou com um bom fã-clube de cinqüentões". Os colegas do tempo de escola lembram dele como um baita palhaço. Sempre vai haver quem martele a tecla do trágico, mas o fim de sua vida é mais bem explicado por esse aspecto de temperamento. O maior conflito artístico de Jeff Buckley esteve ligado à administração da herança paterna, explícita não só na voz e no rostinho bonito, mas também numa série de influências e escolhas artísticas. O segundo grande conflito foi o mesmo de Cobain. Com potencial para se transformar em megastar, Jeff optou por shows pequenos e volume baixo; fez questão de manter improvisos erráticos e arestas por aparar em suas canções, Pode parecer tolo, mas esse ser ou não ser mainstream era questão central nos anos 90, E provavelmente continua sendo para quem, palhaçadas da vida real à parte, levava a obra loucamente a sério e com ambição estética do tamanho de sua paixão.

1.Mojo Pin (5:42)
2.Grace – 5:22
3.Last Goodbye (4:35)
4.Lilac Wine (4:32)
5.So Real (4:43)
6.Hallelujah (Leonard Cohen, arr. Jeff Buckley) (6:53)
7.Lover, You Should've Come Over (6:43)
8.Corpus Christi Carol (2:56)
9.Eternal Life (4:52)
10.Dream Brother (5:26)

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