quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Carmen - Fandangos In Space (1973) [U.K]



O Carmem é uma banda sui generis do rock progressivo inglês dos anos 70. Ela foi composta por um quinteto ordinário para rock progressivo, com dois vocalistas, Roberto Amaral e Angela Allen - sendo que a senhorita Allen também ficava encarregada dos deveres no teclado-, um baterista (Paul Fenton), um guitarrista (David Allen) e um baixista. Aliás, abrindo um parêntese, o baixista da banda é nada mais que John Glascock, que tocou com o Jethro Tull posteriormente, entre os discos Too Old e Stormwatch, e depois viria a falecer. Mas então, o que torna esse conjunto tão diferente? Na verdade, a banda é comumente classificada como folk-rock, mas não tocava no estilo inglês, e sim fazia um folk flamenco! Isso mesmo, uma banda da Inglaterra tocando música espanhola! E digo mais, a música da banda chega a ser mais “ibérica” do que muitas bandas espanholas chegaram a fazer.
O grupo lançou três discos: este que me proponho a resenhar e também o primeiro, Fandangos in Space, de 1973; o segundo, chamado Dancing on a Cold Wind (1974), talvez um pouco menos flamenco e mais sinfônico que o primeiro, mas contendo uma maravilhosa suíte, com muitos temas, de mais de 20 minutos; e o terceiro, The Gypsies (1975), o qual infelizmente nunca tive oportunidade de ouvir.
E como é essa sonoridade tão característica desse conjunto? Bem, baixo e bateria fazem um excelente trabalho, mas a musicalidade de ambos os instrumentos está mais voltada para o rock progressivo tradicional, com ritmo pegado e que confere energia à música. A guitarra também envereda por esse caminho, mas, por ser um instrumento mais sentimental, a forma como é tocada leva o som para atmosferas mais espanholas, lembrando em momentos uma guitarra típica desse tipo de música. Os teclados e sintetizadores, curiosamente a cargo da única (e bela) mulher do grupo, têm exatamente a sonoridade e intensidade que se esperaria de grupos como ELP ou Yes, mas o timbre remete fortemente também a uma sonoridade espanhola, e ajuda a construir e marcar também a sonoridade mais flamenco da música. Agora, vamos ao que mais se imprime na música do grupo. O trabalho vocal fica a cargo dos Allen e de Amaral. Angela possui um belo vocal, bem característico, mas não deixa de ser basicamente aquilo que estamos acostumados a ouvir no progressivo inglês tradicional, talvez com um pouquinho de sotaque. Já Amaral (e Allen em menor escala), imprime bastante a sonoridade espanhola, dando um tom marcante (talvez um pouco forçado e cafona) à sonoridade do conjunto. E é exatamente essa mistura, de um vocal tradicional comum a um mais característico, que não deixa a coisa forçar demais para um simples tom espanhol, tornando ainda mais singular o trabalho do Carmen. Contudo, ainda falta um dos pontos principais, aquilo que realmente torna a música da banda especial: é o trabalho sonoro-artístico típico da dança flamenca incorporada à música: a utilização de palmas, com a presença do sapateado e com as castanholas, que é feito na música de estúdio e também reproduzida nos shows, dando uma característica bastante dramática ao som. Esse trabalho com as mãos e os pés ajuda na composição da percussão, no preenchimento da sonoridade e é o ápice de todas as características flamengas na música da banda.
E o disco em questão? Na verdade, o álbum é a expressão de tudo o que eu citei acima, toda a qualidade sonora do rock progressivo inglês com sotaque espanhol. Uma mistura única. Os temas das músicas acabam caindo naquele lugar comum desse estilo: ciganos, amores proibidos, duelos entre cavaleiros, o mar etc. As letras são basicamente em inglês, mas de vez em quando aparece uma frase em espanhol para aclimatar ainda mais a música ao estilo proposto.
O disco é um trabalho bastante homogêneo, apesar de não ser um disco conceitual, há certa fluência das músicas, o que solidifica bem o trabalho. Este é composto por músicas bem vibrantes, características, mescladas com algumas mais calmas e suaves, mas sem ser melosas ao extremo. Por ser um trabalho tão homogêneo, não creio ser necessária uma distinção entre as músicas, mesmo porque acho que esse é um trabalho que necessite mais ser ouvido do que lido. Contudo, faço um destaque para as seguintes canções: Bulerias, a primeira do disco, e que já dá o tom, uma música vibrante, agitada, com um toque de rock, mas com alma e expressão do flamenco, com alguns vocais em espanhol; Sailor Song, que faz o estilo mais música calma, dando um contraste interessante; Looking Outside (My Window), uma perfeita mescla entre o rock progressivo inglês e espanhol, uma música pegada e com variações rítmicas; e Tales of Spain, com quase nove minutos, que sintetiza todo o trabalho de forma magnífica.
Enfim, um trabalho único, que apesar de ser bastante criticado e desmerecido, é uma verdadeira obra prima. Um disco ímpar, que recomendo uma audição a todos que apreciam o progressivo sinfônico e/ou simpatizam com o progressivo espanhol.

1.Bulerias (4:18)
a.Cante
b.Baille
c.Reprise
2.Bullfight (3:39)
3.Stepping Stone (2:45)
4.Sailor Song (4:54)
5.Lonely House (2:58)
6.Por Tarantos (1:44)
7.Looking outside (My window) (5:10)
a.Theme
b.Zorongo
c.Finale
8.Tales Of Spain (3:32)
9.Retirando (2:13)
10.Fandangos In Space (4:33)
11.Reprise (2:05)

Download: http://www.megaupload.com/?d=STBIU6T6

4 comentários:

  1. Huuuuummmm...gosto dessas misturebas apesar do risco de soar meio pastiche, VeTor. Mas com uma credencial como o Glascock, torna-se obrigatório experimentar, né?
    []ões

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  2. Eu sempre tive dúvidas em relação ao Carmen, se eles eram espanhóis, mas esta resenha é bastante elucidativa.

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  3. Edson d'Aquino, tambem gosto muito dessas misturas, mas como toda mistura é sempre bom saber dosar os elementos. Mas como mesmo disse, Glascok já da um gás no ânimo pra conhecer o trabalho, mas no final, todo mundo faz bem feito a sua parte.

    Pois é, O autor dos rebentos, muita gente tem a mesma dúvida sobre a origem do grupo, mas bom que agora a dúvida está esclarecida...;)

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  4. Muchaaaaassssss gracccciiiiiaaaasssss!!!!!
    I've been looking for this for a long time. I still had this and second on vinyl but not in good conditions.
    Greetings from Македонија

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