terça-feira, 8 de setembro de 2009

Van der Graaf Generator - Still Life (1976)



Após a "retirada" de 3 anos para carreira solo de Hammill e a volta triunfante em "GoodBluff", de 75, o Van Der Graaf Generator (VDGG) entrou novamente em estúdio em 1976 para gravar um álbum sólido, extremamente rico em letras, e recheado de órgãos e saxofones como de praxe. Neste momento Hammill já se destacava como um dos grandes vocalistas de rock de todos os tempos. Teatral, emotivo e muito criativo, Hammill encantava e puxava a massa apreciadora de progressivo de vanguarda para se aventurar pelo som bastante polido e cabeça do VDGG. É inegável que discos como Pawn Hearts e H to Who..., ambos do início da década de 70, foram álbuns chave para o progressivo a ser gravado no decorrer da decada, mas a parada no meio dos anos 70, no auge do sucesso, querendo ou não, deu uma esfriada na carreira do VDGG. Não tenho duvidas que a intenção possa ter sido essa. Sem discutir os méritos da parada (estratégica ou não) nem a filosofia de vida de Hammill e sua visão do que é rock'n roll, o que vale é discutir a discografia desta banda muito autêntica e cativante.
O VDGG não contava com músicos virtuosos, solistas graduadíssimos ou figuras aberrantemente excêntricas. A banda era econômica, fazia progressivo limpo, com acordes repetitivos baseados em saxofone, baixo e órgão, que serviam de apoio para a voz doce e ao mesmo tempo agressiva de Hammill. Afinado, Hammill transparecia o conteúdo altamente rico de suas letras com variações sutis, quase dramáticas, de sua voz, incluindo suspiros, gritos, e belos graves. O progressivo do VDGG ia do épico, com pelo menos 5 variações e 20 minutos de duração (como em Pawn Hearts) ao dramático-romântico com 4 a 5 minutos (House with no Door, do H to Who...). Tudo com excelência instrumental, entrosamento nota 10, cozinha competente e surpreendentes melodias que ficam aderidas ao cérebro por alguns bons anos... A formação que gravou Still Life é a clássica, e se desfaria no album seguinte. Os músicos estavam perdendo o fio da meada, Hammill já apontava para outra direção, e o que vimos foi basicamente um album solo.
Mas de qualquer forma, em 76, Hammill, Banton, Jackson e Evans se juntaram em estúdio, vindos da boa turnê do GoodBluff (casas lotadas, boa recepção da crítica, apesar da mudança para um progressivo mais seco, menos experimental, como no início da década) e gravaram o belo Still Life.
O álbum é mais suave que o GoodBluff, e também menos experimental e ousado que Pawn Hearts. Tudo, diria eu, fazia parte de um amadurecimento natural. Para muitos, Still Life é mais maduro e melhor álbum que GoodBluff. Ambos se assemelham em instrumental e marcação rítimica básica, mas aponto para o melhor conteúdo das letras em Still Life.
Still Life abre com Pilgrims. Faixa memorável, clássico eterno da banda. Bela letra, lindos acordes iniciais ao órgão, onde a voz suave de Hammill delicadamente encanta o ouvinte. Jackson acrescenta belo sax ao fundo, e a musica evolui basicamente com o órgão, bateria e a voz de Hammill. Mais que suficiente. A melodia cresce em um tema grandioso e realmente, como um bom amante de progressivo, tenho vontade chorar. Clássico. A simplicidade dos arranjos, somente os quatro instrumentos básicos, que acompanharão o ouvinte através do album, se completam estupidamente bem. Progressivo limpo, simples e emocionante.
Still Life, faixa-título, traz um tema pesado na letra, e Hammill transmite uma melancolia escancarada em cada frase. O órgão de Banton parece chorar ao fundo. Um tema mais agressivo irrompe a melancolia e traz um órgão rançoso acompahnado por riffs de sax e uma voz ironico-agressiva de Hammill. Cozinha forte, bateria marcada, rouca. Bela faixa novamente. Outro clássico.
La Rossa é um longo tema, mais uma vez Hammill inicia a faixa com vocais dramático-teatrais. O clima é mais misterioso que anteriormente. Baixo, bateria, órgão e sax brincam ao fundo e os vocais agressivos e irônicos de Hammill passeiam por letras de cunho filosófico bastante profundos. A faixa segue em uma marcação envolvente por alguns minutos. Há algumas paradas, quebras de ritmo afiadas e bons riffs de sax e flauta. Ponto para Jackson e Banton, excelentes instrumentistas. Uma das faixas mais complexas até o momento. Excelente.
My Room (Waiting for Wonderland) fala de solidão, e a voz melancólica de Hammill é a melhor escolha para a letra. A melodia é simplesmente deliciosa. Belo e memorável tema de sax, lindos solos durante a faixa. Um piano base tocado por Hammill serve de tapete para as delicadas incursões de Jackson e do restante da banda. Há um repetição do tema, que parece crescer na cabeça do ouvinte a cada audição. Suave e instigante, uma faixa para relaxar. Está entre as mais conhecidas da banda.
Childlike Faith in Childhood's End encerra o album como uma bela pancada na cabeça. Longa e repleta de belos temas, do início ao fim. O riff central é grandioso e prova mais uma vez que, ao gravar Still Life, Hammill e cia. estavam 100% e o fim do VDGG talvez nunca tenha se justificado realmente. Letristicamente a faixa é perfeita, como todo o album. Jackson brinca com a flauta e com o sax em diversos trechos, contribuindo para o que talvez seja a faixa mais rica e dinâmica do album, apesar de um pouco menos acessível que as duas primeiras.
Still Life é parada obrigatória para quem curte progressivo da segunda metade dos anos 70. Seco e econômico, mas extremamente bem arranjado e executado. Para quem não conhece VDDG, comece por Pawn Hearts ou H to Who... Se achá-los em demasia inacessíveis (e podem parecer em um primeiro momento), tente o GoodBluff e mesmo o Still Life. Vale dar uma parada também na carreira solo de Hammill e tentar prestar atençao em cada verso deste grande letrista do rock.


1.Pilgrims 7:12
2.Still Life7:24
3.La Rossa 9:52
4.My Room (Waiting for Wonderland) 8:02
5.Childlike Faith in Childhood's End 12:24

Download:http://rapidshare.com/files/198396799/Van_Der_Graaf_Generator_-_Still_Life_1976.rar

3 comentários:

  1. Olá meu caro amigo,

    Quero parabenizá-lo por sua eloquência. É impressionante a forma como descreveu o álbum. É fácil notar seu conhecimento musical e sua sensibilidade.
    Digo que poderia comparar sua descrição à própria genialidade e sobriedade do álbum. Pois foi o que você fez: num longo discurso, praticamente esgotou tudo que se poderia dizer sobre Still Life. Perfeito!!!!

    Abraços!

    FAUSTODEVIL (HOFMANNSTOLL)

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  2. Acabo de comprar o vinil "Still Life" do brilhante VDGG... Disco sóbrio e eloquente, conforme a descrição. A faixa "My Room" é indescritível! Grande disco! Vale cada audição!

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  3. Van der Graaf Generator - Still Life Quero parabeniza-lo pela descriçao do album e pelo otimo album mtu bom

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